Feita em forma de diário, a obra traz por exemplo, numa entrada marcada de janeiro de 2019, a constatação fria do protagonista de que agora ele poderia, por decreto, ter quatro armas de fogo em casa. Os eventos políticos do Brasil bolsonarista não foram plano primordial para a escrita de Chico, mas acabaram aproveitados por ele como recurso para desenvolver a ficção. A decisão de impregnar o romance das notícias de jornal permite, por exemplo, que Chico situe Rebekka numa manifestação que de fato ocorreu no Rio de Janeiro na data anotada no diário. E que se escute a comemoração de um gol do Flamengo num dia em que, de fato, o time pontuou. A complexidade desse mosaico serve para embaralhar uma confusão autoral já característica da obra literária de Chico Buarque.
Source: Folha de S.Paulo November 08, 2019 05:08 UTC