A situação de Wilson Witzel —que se recusa a deixar o Palácio Laranjeiras, no alto do Parque Guinle, mesmo depois da votação acachapante (69 a 0) na Assembleia Legislativa que determinou o prosseguimento do processo de impeachment— lembra "O Outono do Patriarca", de Gabriel García Márquez. Publicado em 1975, o romance do Nobel colombiano --o primeiro que escreveu depois do clássico "Cem Anos de Solidão", pressionado a provar que este não tinha sido um golpe de sorte-- é outro mergulho na solidão, não mais a de Macondo, mas a solidão do poder. "O Outono do Patriarca" é um dos primeiros livros a abordar o fenômeno moderno das celebridades. O que é Witzel senão um aventureiro que surgiu do éter bolsonarista e, com rapidez assombrosa, está voltando a ser o nada que era antes? A comparação com o ditador do romance de García Márquez acaba sendo um elogio para alguém que não passou de um projeto de ditador.
Source: Folha de S.Paulo October 03, 2020 03:00 UTC